Três índios

Sonho CLVIII
 
 
Era de noite e F. de Riverday estava num cais de madeira, encolhida num canto de cócoras.

Apareceram três índios. Um rapaz, um homem e um velho.

F. de Riverday perguntou ao pequeno rapaz:
 
«Tu és um índio, certo?»
 
O rapaz tinha o corpo brilhante como bronze e usava uma tanga de pele sobre os órgãos genitais e um colar de sementes ovais ao pescoço.
 
Mas o rapaz ainda não tinha aprendido a ser um índio. Era por natureza irreverente.
 
«Ele não leva nada a sério.» Queixou-se o homem que também era o seu mestre.
 
«Olha bem para os seus olhos. Os olhos são puros quando riem. São sem malícia. Eu, pelo contrário, sou mau. Olha bem para este traço aqui, na minha pele, sobre as sobrancelhas. Foi vincado e cozido no ressentimento. Sou um índio dentro das regras dos índios. E consigo ser muito mau.»
 
Enquanto isto, o índio mais velho, de cócoras, recolhia peixes que tirava do rio para dentro de um cesto e fazia-o como se fosse um urso, com a mão.

«Que escuro que está.» - observou a Riverday - «Como é que ele consegue pescar tão depressa?»

«O rio tem mais peixes que água.» - respondeu o mestre, com um sorriso.

E, para se despedir, abriu-lhe os braços para lhe dar um abraço de igual para igual.

Aquele cumprimento índio consistia em encher os pulmões até ao limite do ar, encostar o peito ao outro peito e apertar os troncos com força ao mesmo tempo que todo o ar saía.

As maminhas de F. de Riverday doeram com o impacto, de tal modo que ela se perguntou se aquele seria um cumprimento exclusivo apenas dos homens.

Uma onda de calor intenso alastrou por todo o seu corpo ao mesmo tempo que a Riverday sentia que aquele ar lhe fora insuflado.

«Que abraço, meu Deus.»

E os três índios desapareceram com os cestos carregados de peixe.