Sobre os mundos paralelos

Sonho CLVII
 
 
Durante vinte e quatro horas, viajava entre mundos paralelos.
 
Em todos eles, porém, eu era o mesmo rapazito de doze anos, pequeno e franzino, de cabelos castanhos.
 
No primeiro mundo paralelo, vivíamos em submarinos blindados e estávamos sob o fogo de um conflito intergaláctico entre populações extraterrestres.
 
As nossas casas eram incrivelmente funcionais e assépticas.
 
Os quartos eram totalmente lisos e despidos, iluminados com uma luz glauca e rarefeita que fazia brilhar suavemente o chão cor de cinza e as paredes esmaltadas de branco.
 
Todos os móveis e mesmo as camas e as cadeiras estavam embutidos nas paredes lisíssimas e só saíam quando se carregava num botão.
 
Não se ouvia nenhum ruído que viesse do mundo lá fora, nem havia janelas que permitissem ver qualquer paisagem.
 
Tudo branco, excepto, debaixo dos pés, o chão em cinza.
 
E neste mundo eu era tão infeliz como na minha adolescência verdadeira.
 
No segundo mundo paralelo, contudo, eu e a minha irmã éramos os filhos de um eminente general e, apesar de vivermos em submarinos, já se podia sair.
 
Além disso, não estávamos em guerra e víamos o exterior através de pequenas vigias.
 
Ao longe, desfilava uma parada militar composta por naves ultra-sónicas que pareciam arranha-céus e que brilhavam ao lusco-fusco do fim de tarde com muitas luzes coloridas dispostas ao longo dos vários andares.
 
Neste mundo, eu passeava sozinho numa cidade ruidosa e queria testemunhar um ritual sangrento que decorria num palco rodeado de borracha negra onde se movimentava um grupo de homens encapuçados de vermelho.
 
Os capuzes eram altíssimos, do tamanho de uma criança de pé.
 
Talvez fossem devorar animais vivos ou fazer qualquer coisa de inimaginável e terrível, mas, quando me viram, correram comigo à paulada porque eu não pertencia àquele grupo.
 
Por fim, no terceiro mundo paralelo eu era um pássaro muito pequeno, talvez um pardal.
 
Mas continuava a ter uma alma de rapaz.
 
Havia um homem sedutor, insinuante e manhoso que me queria conquistar, só que eu fugia para dentro de uma caixa de correio.
 
Ficava muito amachucado, mas a minha irmã salvava-me escondendo-me dentro das suas pequenas mãos.
 
Num outro mundo, não sei se o quarto, se o antepenúltimo, se o primeiríssimo de todos, o que eu tentava fazer era reabilitar um velho Mini que tinha sido nosso há trinta e seis anos.
 
Arrependia-me, porém.
 
O velho Mini tinha lá dentro dois objectos de duas pessoas que me tinham morrido, uma bolsa de praia da minha avó, e uma calçadeira tricolor do meu avô.
 
Eu não sabia o que sentia, com aquelas duas coisas nas minhas mãos.
 
«Já viu?» Dizia eu para o mecânico que tentava reabilitar o velho Mini. «Isto serve para calçar os sapatos.»
 
Tinha sido uma péssima ideia, reabilitar o velho Mini.
 
Se acelerássemos a cento e quarenta debaixo de chuva batida o velho Mini parecia desconjuntar-se em mil bocados.