Sobre a escrita como salvação

Sonho CLV
 
 
Estava no pátio uma criança que chorava, por não conhecer ninguém.
 
«Queres vir à praia?» - perguntava eu - «Os outros meninos costumam divertir-se a construir castelinhos à beira-mar.»
 
A criança sorria e mostrava-se animada.
 
Eu dava-lhe a mão - e iam connosco mais cinco meninas.
 
Ao sairmos do pátio, encontrámos um jardim clássico que ficava entre nós e a praia, um daqueles grandes jardins desenhados a régua e esquadro, com vastas extensões de buxos formando losangos e outras figuras geométricas e com todas as árvores e arbustos criteriosamente aparados.
 
«Meu Deus...» - pensava eu - «Este jardim não estava aqui antes...»
 
Logo à entrada, os buxos e os arbustos estavam cobertos por uma espécie de penugem vermelha, o que era muito estranho.
 
«Não toquem...» - Dizia eu. - «Pode ser um feitiço...»
 
E via-se que a praia estava realmente muito longe.
 
Este jardim situava-se no topo de um grande castelo e, da amurada altíssima da muralha, podíamos ver que se debatiam dois exércitos em guerra.
 
Lá longe os campos fumegavam com as bombas que rebentavam e nós podíamos ouvir o som dos tiros e das explosões, amortecidos pela distância.
 
Que guerra seria?
 
Afinal, em que lugar do mundo nos encontrávamos?
 
De súbito, apercebíamo-nos que um pelotão de soldados se encontravam muito perto de nós.
 
«Deitem-se!» - Dizia eu.
 
Pois não sabíamos se esse era um daqueles grupos radicais que fazem explodir as ruínas históricas e escravizam as meninas, ao mesmo tempo que decapitam os homens.
 
Como éramos apenas raparigas, deitámo-nos debaixo dos arbustos e tentámos ficar invisíveis.
 
Ninguém deu por nós e ouvimos um por um os homens saltarem por cima dos arbustos onde nos tínhamos escondido.
 
«Vamos.» - Disse eu. - «Temos de encontrar uma saída.»
 
Entrámos assim no grande palácio que dava para o jardim, em busca de uma saída.
 
Era um faustoso e imenso palácio com altas portas duplas e bandeiras de vidro, frescos nos tectos e muitas volutas douradas.
 
Porém, à medida que caminhávamos no interior do grande palácio, descobrimos que os sítios por onde tínhamos acabado de passar desapareciam como franjas de vapor ou cortinas de fumo.
 
Abríamos uma porta, vindas de um corredor, e entrávamos numa sala.
 
Quando voltávamos ao corredor, encontrávamos um pátio.
 
Quando regressávamos ao pátio, encontrávamos uma escada em caracol.
 
Se saíamos de um salão, e queríamos lá voltar, entrávamos num corredor.
 
Se era um corredor estreito, então agora tinha mil portas, e era impossível ver-lhe o fim.
 
Se era uma varanda, agora era uma cave.
 
Se era um terraço, agora era um salão de espelhos.

Se era um quarto de rainha, agora era um mirante.

Se era uma escadaria, agora era um sótão.

Se era uma chaminé, agora era um poço.
 
Este palácio fazia-me lembrar as conversas da minha mãe.
 
Do nosso grupo, todas as raparigas estavam a enlouquecer e a entrar em pânico e desataram a correr aos gritos cada uma para seu lado.
 
«Não corram!...» - Gritava eu. - «Temos de nos manter unidas!...»
 
Agarrei com toda a força a mão da Maria do Mar e disse-lhe:
 
«Nós ficamos juntas.»
 
Quisemos abrir a porta de espelhos do salão em que estávamos, mas depois de abrir a primeira porta de espelhos, encontrámos uma segunda porta de espelhos.
 
Abrimos a segunda porta de espelhos e encontrámos uma terceira porta de espelhos.
 
Abrimos a terceira porta de espelhos e encontrámos uma quarta porta de espelhos.
 
Em todas as portas de espelhos podíamos ver os nossos corpos inteiros de mãos dadas e a nossa expressão de terror.
 
Quanto mais depressa abríamos as portas, mais depressa os espelhos se desdobravam, uns após outros, voando atrás das nossas costas como asas.
 
A Maria do Mar desatou a gritar e desapareceu atrás de um espelho enquanto eu lhe segurava a mão e lhe pedia que não gritasse.
 
De repente, percebi que a sua mão estava muito leve e trepei pela porta acima de modo que pude ver que o que segurava na minha mão era um braço de manequim.
 
Soltei o braço enquanto gritava até não poder mais, até já não ter forças para me ter em pé.
 
Sentada no chão, por fim, pensei: «Aquele não era o braço dela. A Maria do Mar está inteira. Aquilo era um braço de manequim. Isto é um feitiço, uma ilusão. Eu tenho de me acalmar.»
 
Tirei da minha mochila o Livro VI da Sophia de Mello Breyner e as Odes do Ricardo Reis e pus-me a ler.
 
Sempre me tinha irritado aquele vocabulário tão limpo e puro da Sophia, aquele português tão branco e tão púdico, tão livre da obscenidade, do barroco e da trivialidade, mas agora sabia-me tão bem como se fosse um bálsamo. E sempre me tinha enervado aquela anorexia do desejo em Ricardo Reis, sempre a ver a morte, a morte, a morte, mas agora tranquilizava-me como se fosse o colo de um amante.

Não há dúvida - é preciso ter experimentado uma espécie de desespero particular para apreciar certa qualidade de literatura.
 
Repousei a alma com essas duas leituras - e comecei a escrever.
 
Enquanto escrevia, o palácio do caos e do absurdo podia mudar mil vezes o lugar dos quartos, das varandas, dos corredores, dos terraços e dos salões.
 
Escrevi durante muito tempo como se nada tivesse acontecido e, por fim, comecei a sentir fome.
 
«Se andar sempre na mesma direcção, por muito que todas as coisas mudem de sítio, hei-de chegar a algum lado.» - Pensei eu - «Este palácio, como todas as coisas que existem, há-de ter um limite.»
 
Fiz exactamente como tinha pensado e às duas por três encontrei num pequeno cubículo um prato que tinha quatro pêssegos.
 
«Meu Deus, vou comê-los todos!...»
 
Só que ouvi atrás de uma pequena porta o ronco de um bicho adormecido, um ronco pavoroso.
 
Quis sair daquele cubículo sorrateiramente mas em vez de uma porta tive de abrir dez portas.
 
As minhas mãos tremiam muito e eu pensava: «Isto é realmente insuportável!...»
 
Salvei-me desse bicho e por fim corri por amplos salões enquanto de tempos a tempos tropeçava em gatos.
 
«Se há gatos, também há comida.»
 
E, tal como me determinara, corria sempre na mesma direcção.
 
Funcionou, porque saí finalmente do palácio encantado.
 
À porta, sentado no chão, estava um rapaz que escrevia tão sofregamente como eu.
 
«Se ele se salva deste modo, deve ser parecido comigo.»
 
- Sabes onde podemos arranjar comida? - perguntei.
 
O rapaz colocou a mochila à costas e respondeu afirmativamente.
 
Descemos com a ajuda de cordas pelas paredes de um arranha-céus altíssimo e, de súbito, ele deu um salto de muitos metros de altura, aterrando de pé no topo de um telhado em betão e chapa de zinco.
 
«Afinal, este rapaz não é como eu. Somos muito diferentes. Somos alienígenas um do outro.»
 
- Se eu der um salto como esse, parto os ossos todos!... - Gritei eu.
 
- Salta! - Dizia o rapaz. - Não tens alternativa!
 
- Eu não sou como tu!... - Gritava eu. - De certeza que não tens um esqueleto igual ao meu!...
 
- Salta! - Gritava ele. - Eu sou igualzinho a ti!
 
Mas eu não sabia se aquilo não era só uma armadilha para me matar.
 
Que extensão de igualdade possível garantiria um único acto como escrever sofregamente?
 
«Salta!...» - Dizia eu de mim para mim, para ganhar coragem. - «Salta!...»
 
Mas eu não me mexia - e de repente acordei.
 
Até mesmo a dormir há um limite para a coragem possível.