Sobre um urso

Sonho CXLIV


Pela primeira e única vez na minha vida contratara uma empregada para me ajudar nas tarefas domésticas e conversava com ela na sala, quando entrou um urso pela janela.
 
Dei por mim a saltar para cima do fogão e a trepar com uma agilidade desconhecida pelos armários da cozinha.
 
Encaixei-me aí no topo colado ao tecto como uma aranha enquanto rezava para que os armários não caíssem ao chão com o meu peso.
 
«Afastem-se!...»
 
«É um animal extremamente perigoso!...»
 
«Tem garras e dentes afiadíssimos!...»
 
Gritava eu para os que entretanto tinham chegado e queriam entrar.
 
«Estaremos num filme de Charles Chaplin?»
 
Estava a pensar na «Corrida do Ouro» quando, já depois de ter comido o sapato na noite de Acção de Graças e tentando proteger-se do Big Jim alucinado de fome e que o via transformado em frango, Charles com a cabeça coberta por um pano se agarra rastejando pelo chão à perna de um urso que entretanto entrara na cabana, pensando que era a perna do companheiro que o queria comer.
 
Estavam os dois condenados a morrer de fome na cabana isolada no meio da tempestade, ou a ser um deles comido pelo outro, mas acabaram por comer o urso.
 
No meu caso tinha esperança que, tal como entrara, o urso saísse.
 
Também as vespas e as abelhas entram às vezes pelas janelas abertas nos dias de Verão e depois voltam a sair, por uma maravilha do acaso.