Sobre a compaixão

Sonho XCI
 
 
Tinha nas mãos uns papéis do Professor José Gil, com uma primeira crítica ao meu trabalho.
 
Aí podia encontrar uma listagem dos pontos fracos e ainda, para meu grande contentamento, uma selecção de «nacos».
 
Os nacos eram as partes melhores, realmente inspiradas, desse trabalho que tinha realizado.
 
Surpreendentemente, também aparecia aí um comentário ao Artur Borboleta, que dizia:
 
«Ser um felino de olhos radiantes na escuridão não era suficiente para ele. Nada era suficiente para ele. Suficientemente liso, para que a fluidez fosse perfeita. Menos que isso não era suficiente.»
 
Uma matéria que permita acelerar sem obstáculos, um plano de velocidade por onde os fluxos mais intensos possam passar, um corpo em que as articulações não quebrem nem cedam, mesmo quando lançado dos píncaros.
 
E isto fazia-me pensar nos comentários de Deleuze sobre a matéria fluída de Kant, na Crítica da Faculdade de Julgar.
 
Tirava então os olhos dos papéis que tinha nas mãos e via a casa de Artur B., de cima, como se olhasse para um mapa, mas ao vivo.
 
A decoração tinha alguma daquela que julgo ser a sua vivacidade e infantilidade.
 
Havia um urso enorme, cor-de-laranja, colocado num canto.
 
Os sofás eram roxos e vermelhos, e havia, no chão, um tapete lilás.
 
Era tudo muito arrojado, completamente inusitado.
 
«Mas porque é que Artur B. tem este gosto?» - pensava eu. 
 
Artur B. com os olhos muito claros e ainda sem se ver neles o reflexo de um qualquer juízo crítico, uns olhos imensos por onde parecia que ia um universo inteiro ou uma nebulosa, como os olhos de certas crianças sonhadoras.
 
Íamos todos num mesmo carro - eu, Artur B., a Francisca M. e F. de Riverday - quando vimos uma mulher a dançar, sozinha no passeio.
 
Imediatamente lhe achei graça, pela sua liberdade e displicência, pela sua alegre independência.
 
Porém, um pouco adiante, ela cambaleava tanto que não conseguia acertar com o corpo no buraco da porta.
 
Como se fosse ao mesmo tempo muito leve e muito pesada dava corridas inclinadas como se uma gravidade diferente a subjugasse e era em vão que tentava agarrar-se às paredes ou às maçanetas das portas.
 
Tentando entrar com o corpo no buraco da porta dava em vez disso com o corpo na parede, sucessivas vezes, até cair.
 
«Ah!...» Pensava eu. «Está completamente bêbada!...»
 
Aquele estado de vulnerabilidade e loucura era, ao mesmo tempo, patético, trágico e cómico.
 
«Que raio de humanidade esta, que anda aos tombos...»
 
Porque eu sentia pena e ao mesmo tempo uma enorme simpatia por aquela mulher que primeiro dançava, e depois caía.