Sobre uma garantia desastrosa

Sonho CXLI

 
Adalric van der Aa era o presidente de uma alta comissão para a regulação da transparência nos meios de informação pública.
 
Ele tinha reparado na Francisca M. e, por isso, convidara-a para participar numa mesa de reuniões a que ela naturalmente não pertencia.
 
Como mera empregada daquela empresa, a Francisca não se atrevera a discutir o convite.
 
Não lhe parecia uma boa ideia começar uma discussão, pelo menos naquele momento.
 
A reunião seria em princípio trivial não fosse de súbito surgir em cima da mesa uma notícia que os deixou a todos em completo silêncio.
 
A Índia acabava de doar a Angola uma cidade de dez milhões de habitantes armados.
 
A Francisca não imaginava que o governo de um país pudesse doar a outro governo uma cidade e todos os seus habitantes, ainda para mais sem os consultar, sem realizar previamente uma consulta pública. E armados porquê? 

Como a Francisca registava por curiosidade e vocação tudo o que se passava num pequeno caderno de notas, escreveu:
 
«ABSOLUTO SILÊNCIO».
 
Seguiu-se uma votação quanto à divulgação de um tal facto perturbador e todos votaram por unanimidade. Depois, foram almoçar.
 
A Francisca não sabia que Adalric era comprometido e sentia-se bastante atraída por ele.
 
Em parte pela discreta elegância, pelo charme e pelos cabelos brancos, mas em particular por ele ser bastante mais velho que ela.
 
Adalric era aliás suficientemente perspicaz e pouco egocêntrico para se aperceber disso.
 
Mas havia qualquer coisa nele que a repelia, um traço de carácter que não conseguia precisar, qualquer coisa muito subtil que apenas com uma fina intuição captava, com a auréola de um vago mal-estar.
 
Na verdade, Adalric lembrava-lhe Heinrich Hart, por quem em tempos tivera essa coisa extraordinária a que se pode chamar «uma paixão sem reservas».
 
Era como se Adalric fosse uma corruptela de Hart.
 
Ao olhar pela janela, sentada na mesa de reuniões com o pequeno caderno de notas aberto à sua frente, a Francisca podia ver um prédio de quatro andares que era todo construído em madeira e que tinha as cortinas de fora, voando ao vento.
 
As cortinas eram de um mau gosto inultrapassável e todas diferentes umas das outras.
 
«Que estranho.» - Comentava a Francisca.
 
«Todas as cortinas voam fora da janelas. Devem estar a fazer limpezas. Mas então todo o prédio deve ser uma só casa.»
 
«Que disparate!...» - Respondia Adalric.
 
«Ninguém se interessa em viver numa casa tão grande. Ainda não reparou que é uma casa toda construída em madeira? Uma das poucas do século XIV que resistiram ao tempo?»
 
A Francisca apercebia-se então que o prédio em que estavam reunidos tinha também uma construção semelhante e que o chão estava bastante inclinado.
 
Assaltou-a uma tal vertigem que teve de sair da sala de gatas.
 
Mas já no almoço, Adalric queria que ela provasse um certo vinho, o que ela recusava.
 
«Ah!... Percebo. Você já bebeu tudo o que tudo o que tinha para beber...»
 
Ele queria então que ela tomasse um comprimido de Jacarta e tocava-lhe nas pernas com os joelhos, como se fosse por acaso.
 
A Francisca estava com uma vontade crescente de o esbofetear, mas conteve-se.
 
Delicadamente respondeu apenas:
 
«Não como coisas que não saiba o que são.»
 
«Ora essa!... Você não sabe o que é um comprimido de Jacarta?... Vende-se no Continente!...»
 
E como ela não estivesse interessada, ele replicou:
 
«Mas você, aqueles crepes, comeu-os todos!...»
 
«Aqueles crepes têm ovos, farinha, leite, manteiga e sal e eu sei tudo o que isso é!...»
 
Exclamava a Francisca, deveras indignada.
 
«Faça o favor de tirar a perna de cima do meu joelho!»
 
E saía com um colega por uma porta que dava para uma praia de areias finas e brancas, em Cabo Verde, porque afinal aquela alta comissão para a transparência informativa era uma mera agência de viagens.
 
Na praia tinha caído um avião e todos os tripulantes e passageiros estavam mortos.
 
Os bocados do avião e dos corpos estavam espalhados pela imensa praia, num profundo silêncio.
 
«PROFUNDO SILÊNCIO.»
 
Registava de novo a Francisca.
 
Só que entretanto o seu colega começava a saquear os corpos e quando era preciso cortava as mãos e os dedos para tirar os anéis, os relógios, os telemóveis e as pulseiras.
 
«Temos de fazer pela vida.»
 
Dizia ele, perante o choque e o horror que fazia paralisar a Francisca.
 
Aparecia então Ada, a namorada de Aldaric, agitando muito as mãos e sorrindo com os longos cabelos pretos ao vento.
 
«Não acham extraordinário?...»
 
Perguntava ela, com um gesto largo do braço direito que apontava para a sua obra.
 
«Tive esta ideia genial.»
 
«Matei-os a todos, mas agora vamos ressuscitá-los.»
 
«Vejam só a publicidade!...»
 
Uma agência de viagens
que não só lhe garante a segurança da viagem,
mas muito mais do que isso!...
 
Uma agência de viagens
que lhe garante a ressurreição
e a vida depois da morte,
mesmo que o avião se despenhe do alto dos céus
na praia do seu destino!...
 
«Que tal, hem?...»
 
Ada não parecia aperceber-se do grande saco às costas do colega da Francisca e nem sequer dos corpos espoliados, estropiados, mutilados e desmantelados pela violência da queda.
 
Como seria essa maravilhosa vida depois da morte sem um braço, sem um olho, sem uma cabeça ou sem um pé?
 
A Francisca olhava para Ada como uma estátua de pedra e cal, esperando por um processo da mesma ordem que o milagre acordar bem depressa de um tal pesadelo.