Sobre a inviolabilidade do desejo

Sonho CXLII
 
 
No meio de um labirinto havia um cofre que estava no interior de um quarto blindado, numa casa-forte de paredes de ouro.
 
Era aí nesse cofre que estavam as chaves de todos os sonhos.
 
Tanto as chaves da casa-forte, como do quarto blindado e do cofre estavam nas mãos de um homem incorruptível e aquém de qualquer suspeita.
 
Mas havia também um mágico ganancioso que queria conquistar essas chaves.
 
Este mágico era astuto como um macaco e perigoso como uma serpente.
 
Se possuísse um tal tesouro ficaria na posse de todos os enigmas da alma humana e teria aos seus pés um conjunto de fantoches que poderia corromper da forma mais subtil e imperceptível, manipulando-os e vampirizando-os como uma sanguessuga, em benefício da sua própria fortuna.
 
Nada, mas absolutamente nada na lógica do desejo lhe ficaria oculto!...
 
Através de uma emboscada, o mágico conseguira roubar as três chaves ao homem incorruptível que agora o perseguia correndo pelo labirinto.
 
Com os seus poderes, o mágico transformava as escadas e os caminhos atrás de si em poços e abismos e planos incompossíveis de Escher, mas o outro homem, com a sua força, voava por cima deles.
 
Por fim, quando o mágico estava prestes a abrir a primeira porta da casa de ouro, as chaves saltaram-lhe da mão como pássaros e começaram a multiplicar-se em tal número que apenas se ouvia o metal a tilintar e a jorrar pelo chão como uma cascata de moedas incontáveis.
 
E aquilo não acabava.
 
Ambos os homens tiveram de fugir como cães acossados para não morrerem subterrados debaixo das chaves que continuavam a multiplicar-se.
 
Foi pelo mistério da multiplicação das chaves que a inviolabilidade do desejo ficou garantida.