Sobre o incomunicável

Sonho CXL


Era um velório.

Estavam lá aquelas pessoas que só se encontram quando um dos membros da família morre e, de resto, nunca se vêem.

A Francisca M. não se lembrava onde tinha estacionado o carro.

Procurou o seu carro no parque e, sem que o quisesse, o telecomando da sua chave abriu as portas de um carro absolutamente igual ao seu.

Era um Fiat 500 preto.

A Francisca tinha deixado o telemóvel no carro, no banco da direita, mas, como nesse carro também estava um telemóvel no banco da direita, a Francisca não se deu conta do erro.

Foi só quando tentou fazer uma chamada que se apercebeu que não tinha nenhum dos seus contactos.

Ficou preocupadíssima e voltou para trás, mas o carro já não estava lá.

Uma pessoa que estava no velório chegou perto de si com um telemóvel na mão e disse: 

«Senhora Francisca, é a polícia.»

O seu coração disparou de tal modo que parecia querer saltar-lhe da garganta para fora.

Ela não queria resolver aquele assunto com a polícia.

Era uma história tão absurda!...

Como iria convencê-los da sua inocência?

O melhor seria encontrar o outro ladrão involuntário e trocarem de novo os carros.

No meio do seu mal-estar, o que a Francisca não percebia era como um mero automóvel e um mero telemóvel lhe podiam fazer tanta falta e causar uma tal perturbação.

No velório, a avó Edith ainda estava viva e queria saber se ela tinha feito algo de notável.

Não, nada que pudesse ser exibido numa vitrina de cristal, sobre uma almofadinha de cetim.

A Francisca não tinha nada que lhe aliviasse o desapontamento de ter esperado tanto e visto tão pouco.

Apenas se apresentava a Deus todos os dias e tentava ser verdadeira consigo própria.


To thine own self be true,
And it must follow, as the night the day,
Thou canst not then be false to any man.


Que havia nisto de confessável, ou sequer de comunicável, nos bancos de um velório, dispostos em torno de um caixão?