Sobre a renúncia da animação literária

Sonho CXXXVI

 
A Francisca M. assistia a um colóquio sobre Proust, que acompanhava com o maior interesse e excitação.
 
Um dos conferencistas decidira falar em particular sobre um dos seus episódios favoritos, esse em que Proust destrói espezinhando debaixo das solas dos sapatos o elegante chapéu alto do Senhor de Charlus.
 
Falava também um antigo professor que, apesar de uma inteligência desenvolta, tinha aquele hábito inextinguível de estabelecer relações sórdidas ou prosaicas (quase sempre insinuadas e raramente expressas) entre elementos que poderiam ser, se não elevados, pelo menos neutros.
 
A Francisca seguia avidamente todas as referências que ia registando ao longo dos seus sete volumes, com enorme satisfação.
 
Sabia por experiência que depois de uma tal partilha de ideias ao vivo os episódios de Em Busca do Tempo Perdido lhe ficariam para sempre gravados a fogo e ouro na memória, com cores mais fulgentes e ainda maior vivacidade do que se estivesse a ver um filme no cinema.
 
«Não é a mesma coisa quando nós as pessoas vivas não conversamos sobre os livros!...»
 
Razão pela qual ela e uma grande amiga falavam longamente sobre a grosseria do Duque de Guermantes ou sobre a maldade altiva mas nem por isso menos amarga da sua espirituosa esposa, ou ainda sobre a leviandade de Saint-Loup, como se fossem pessoas mais próximas do que os familiares ou amigos comuns.
 
A Francisca sabia que na solidão a memória é mais como um rio do que como um arquivo.
 
Tudo passa e tudo se esquece no leito de rocha que fica para sempre cravado na mesma eterna paisagem - essa tela parda e muito pouco interessante que as ideias conscientes, em conjunto com um incómodo e solitário «euzinho», se obstinam em compor.
 
Às duas por três a Francisca M. deu pela falta de um dos seus volumes, e ficou muito preocupada.
 
Para seu grande alívio, foi encontrá-lo no bengaleiro, onde alguém tinha tido a bondade de o devolver.
 
Estava neste colóquio um professor e conferencista que a Francisca não conseguia deixar de equiparar ao Barão de Charlus, quer pela sua impertinência e gosto pela provocação, quer pela inconstância do seu humor, quer ainda pela vaga misoginia e crueldade irreprimível com que não conseguia deixar de destratar os que considerava inferiores.
 
Era mais do que uma coincidência.
 
Porque sempre os livros atraem cada um uma fauna que os complementa e faz vibrar com as mais diversas ressonâncias, por vezes inesperadas, mas nunca aleatórias.
 
Porém, no que dizia respeito a Heinrich Hart, o resultado era ainda mais desastroso.
 
A Francisca não olhou uma única vez para Heinrich Hart, numa vã tentativa de se proteger.
 
É que esse homem tinha um tal poder de bruxo sobre si que bastava mirá-lo de relance para que ficasse enfeitiçada e começasse imediatamente a desejá-lo.
 
«Não tenho vocação para ser assim tão infeliz!...»
 
Pensava a pobre Francisca, a quem uma tal situação miserável apenas lembrava o suplício de Tântalo, que, por mais que se curvasse para beber a água que lhe dava pelo pescoço, nunca mataria a sua sede, e, por mais que estendesse as mãos para os frutos que rasavam a sua cabeça, nunca saciaria a sua fome.
 
Foi por isso que, apesar de toda aquela útil, pedagógica e excitantíssima animação literária, a Francisca decidiu pisgar-se em menos de um «Ai!...».
 
Não fosse ela afinal uma reverberação inversa de Swann ou de Marcel, e que, como idêntica opiómana do desejo, ainda que invertida pela reacção de fuga, ressoava por simpatia com esse dínamo poderoso da prosa proustiana.