Sobre a psicopatologia da atracção amorosa

Sonho CXXXV
 
 
A Françoise M. ia de jeep com Joseph Blau, que em tempos lhe fizera a corte sem qualquer êxito.
 
Joseph Blau era um conhecido criador de cavalos e contava-lhe então o desgosto que tinha com a sua égua favorita, Lindsy Flau, um Puro Sangue Inglês, filha do garanhão mais bem sucedido da península ibérica.
 
Quisera lançá-la nos jogos de corridas e nas apostas, mas Lindsy Flau ficara sempre em último.
 
Quisera treiná-la para as provas de salto, mas Lindsy Flau tivera problemas nos cascos.
 
Por fim, quisera aproveitá-la para a escola de equitação, mas Lindsy Flau tornara-se rebelde, imprevisível e caprichosa.
 
Porém, Joseph Blau nunca desistira de Lindsy Flau.
 
Lindsy Flau era elegante, veloz, inteligente e talentosa, portanto, como poderia falhar sempre de um modo tão infalível?
 
Lindsy Flau não lhe correspondia de forma alguma, mas Joseph Blau continuava a fazer planos para a sua égua favorita.
 
Para a Françoise M., a quem nem rosas brancas, nem convites para tomar chá, nem cinema, haviam surtido qualquer espécie de efeito, foi a narração dos desaires com a égua que fez amolecer o coração de pedra.
 
Foi precisamente essa inesperada compaixão que sentiu por ele, e que lhe emprestou um encanto novo, que temperou com um vago romantismo aquela suave banalidade, foi precisamente essa repentina piedade que lhe suscitou o drama quase cómico dos desaires de Joseph Blau com a sua égua favorita, que a fez olhá-lo com novos olhos.
 
Joseph Blau não era a mesma pessoa para a Françoise, depois de uma tal descrição involuntária  a propósito da expectativa absurda que temos em seres que jamais nos compensarão pelo nosso amor e esperança, bondade, ou dedicação.
 
No fundo, sem que ela mesma se apercebesse, uma parte de si pensava, a um nível muito imperceptível: «Ah!... Afinal!... Joseph Blau é tão irracional como eu!...»
 
Era esta a constatação indetectável que lhe mudava a disposição.
 
E foi com volúpia e não apenas com simpatia que lhe estendeu e apertou a mão, por cima do travão de mão.
 
A psicopatologia da atracção amorosa é tão subtil e surreal que só mesmo um caçador de sonhos pode atrever-se a capturá-la.