A imensa tela negra

Sonho CXXXIV
 
 
Pedalava na minha bicicleta com uma tal velocidade que ela ganhou balanço e, levantando voo, saiu da estrada.
 
Ficámos eu e a bicicleta no alto de uma muralha que descia sobre a linha férrea, à beira do mar.
 
Não é fácil conduzir uma bicicleta tão rápida num caminho tão estreito.
 
Depressa perdi o controlo e tive apenas tempo de soltar a bicicleta das pernas e de me agarrar com as mãos nas arestas da muralha.
 
Pensei em deixar-me cair, mas observei o fundo, e o fundo não tinha água.
 
Era de pedra bem dura e nua.
 
Mesmo assim pensei em deixar-me cair, mas tornei a olhar de relance, e era demasiado alto.
 
Impossível sobreviver.
 
Não muito longe podia ver um cais onde uma multidão esperava o comboio.
 
Gritei por socorro com as forças que me restavam, mas foi apenas um fio de voz.
 
Não sobram muitas forças quando todo o peso do corpo está nas pontas dos dedos.
 
Tudo o que me ocorria ao contemplar aqueles homens de fato e gravata e mulheres de tailleur aprumado era que decerto esperariam cada um pelo seu comboio.
 
Estavam tão indiferentes e separados uns dos outros que não poderiam embarcar no mesmo comboio.
 
Olhei então para baixo para as enormes pedras nuas e douradas e percebi que minha morte estava perto.
 
Como uma imensa tela negra que de súbito fechasse o mundo, toda a luz do meu sonho desapareceu.
 
É que nos sonhos não se morre.
 
Por segundos, só o mundo se pode apagar.