Sobre um almoço demasiado caro

Sonho CX
 
 
A Francisca M. estava na fila dos almoços do self-service da Gulbenkian, sozinha, quando se apercebeu que Heinrich Hart estava um pouco atrás de si, também sozinho.
 
Acenou-lhe, entusiasmada, mas ele mostrou-se frio e distante, acenando-lhe ao de leve, como fazem as pessoas que não querem cumprimentar-se.
 
A Francisca sentiu-se bastante infeliz e lamentou profundamente tê-lo cumprimentado com tamanha efusão de alegria.
 
Para piorar a situação, quando chegou a hora de pagar o almoço, a Francisca verificou que a sua conta era exorbitante, qualquer coisa como quinhentos euros.
 
Sentiu-se realmente mortificada, ainda por cima com a presença de Heinrich Hart um pouco atrás de si, na fila.
 
Não conseguia perceber como é que um almoço em self-service podia custar aquele preço.
 
«Porque é que não olhaste para os preços antes de pôr a comida no tabuleiro?»
 
Era no que pensava.
 
Apesar de tudo, a Francisca atreveu-se a perguntar como é que uma refeição podia custar aquele preço.
 
Responderam-lhe que estava a pagar todas as horas de trabalho necessárias para descascar os legumes do buffet, as beringelas, as courgettes, as cenouras, os rabanetes, as beterrabas, o feijão verde, etc., e que também estava a pagar a lavagem de toda a loiça, e também a limpeza da cozinha, de modo a que pudesse ter escolhido aquelas coisas que tinha no prato, mas que, se não achasse que fosse justo, então podia apresentar uma queixa em tribunal.
 
As pessoas atrás de si estavam a ficar muito irritadas com o atraso que lhes estava a causar no almoço, mas a Françoise não conseguia deixar de observar em silêncio que era tudo completamente absurdo, apesar de uma certa aparência lógica, todos aqueles discursos com que se defendia o preço dos almoços, e pensava:
 
«Que mundo...»
 
Pelo que decidiu defender-se, recusando-se a pagar o almoço.
 
Observou então que Heinrich Hart desistira de almoçar e corria cheio de pressa para se colocar à frente de um pequeno coro de jovens que afinal ia actuar na hora do almoço.
 
Pensava por segundos que talvez por isso ele tivesse sido tão frio e mal educado consigo, uns minutos antes.
 
Nada disso a consolou, porém, porque a lucidez se sobrepôs à necessidade de auto-ilusão.
 
Sentia-se de rastos e, aliás, estava sem almoço.