Sobre o apocalipse

Sonho XCII

 
O mundo estava ameaçado, mas nós não nos apercebíamos disso imediatamente.
 
A minha casa estava cada vez mais vazia.
 
Todos os dias, quando acordava, havia menos umas coisas.
 
Menos uns pratos, menos uns copos, menos uns livros, menos uns lençóis, menos uns sapatos.
 
Por fim, eram já os móveis que desapareciam, como que por magia.
 
O próprio sol emitia uma luz cada vez mais fraca, deixando o interior da casa na penumbra.
 
Um dia, via um rosto distorcido e alucinado a espreitar pela janela, com uma expressão terrível.
 
Algumas pessoas deambulavam pelas ruas.
 
Já não pareciam seres humanos, mas bestas alucinadas.
 
Aflito, tentava proteger-me, descendo os estores e fechando-me o melhor possível.
 
As comunicações estavam cortadas, não se podia falar com ninguém.
 
Mas eu sabia que mais tarde ou mais cedo teria de sair de casa, para tentar arranjar comida.
 
Quando saí de casa, o mundo já não tinha coisas.
 
Tinham desaparecido os sinais de trânsito e as árvores.
 
A casa estava agora num descampado deserto e, ao longe, via-se uma cerca de arame farpado.
 
Por cima da casa havia uma torre de controlo e estavam lá alguns políticos, cercados pelo exército.
 
Muitos tinham uma expressão calma e decidida.
 
Portanto, era provável que esse grupo não sucumbisse ao desastre, ou então não teriam essa expressão no rosto.
 
Estava também aí um outro homem com uma expressão verdadeiramente preocupada, e eu perguntava-lhe: «O que se passa?»
 
Ele não me dizia nada, mas podia perceber, pela sua expressão de compaixão e terror, que o que se passava era realmente muito grave.
 
Afinal, talvez nem sequer fosse importante tentar arranjar comida.
 
Ele dizia-me:
 
«Avise-nos, por favor, quando a zona frontal da primeira série de chaminés começar a desaparecer.»
 
«O que é isso?...»  
 
«A zona frontal da primeira série de chaminés?...»
 
«Olhe e veja.» Dizia ele.
 
E eu olhava.
 
Ao longe via-se um quarteirão de prédios vulgares, com as suas chaminés erguidas ao alto.
 
Havia em torno desses prédios uma espécie de nevoeiro, como um halo.
 
E de súbito eu percebia, aterrorizado, que já só se viam as segundas chaminés. 
 
As outras chaminés, as que estavam atrás, tinham sido «apagadas»... como se tivessem sido dissolvidas naquele halo.
 
Era uma lenta e imperceptível devoração que estava a apagar as coisas, em silêncio total.
 
Não se ouvia uma explosão, não se ouvia um grito, não se ouvia um choro, e ninguém corria.
 
Aterrado, olhava para o homem olhos nos olhos, no fundo dos olhos, bem no fundo dos olhos, e perguntava: «É suposto que aquilo também me aconteça?...»
 
Ele acenava afirmativamente com a cabeça, quase a chorar.
 
«Faça-me um favor.» Dizia eu. «Tenho aqui uns baús.»
 
«São os meus escritos e os meus planos de livros.»
 
«É o meu tesouro.»
 
«Talvez alguém queira continuá-los, já que agora não vou poder mais.»
 
Ele entrava comigo em casa, para ir buscar os meus papéis, quase a chorar.
 
Eram já poucas as coisas que ainda lá estavam, na casa sombria, e eu ria-me. 
 
«Tantas coisas!...»
 
«Tantas preocupações!...»
 
«Fechar a casa, arranjar comida... Afinal... Para quê?...»
 
O homem estava com uma expressão realmente aflita e permanecia em silêncio, com as lágrimas nos olhos.
 
«Muito obrigado.» Dizia eu, entregando-lhe os baús, com um ar solene.
 
«Agradeço-lhe do fundo do coração.»
 
«Será que pode ainda fazer-me um outro favor, já que está a ser tão simpático comigo?»
 
O homem acenava afirmativamente, como se estivesse hipnotizado.
 
Não se podia dizer, naquelas circunstâncias, que estivesse apaixonado, mas era uma espécie de coisa semelhante, era como se estivesse magnetizado.
 
«Por favor, mate-me agora.»
 
E sentava-me numa cadeira, muito direito.
 
Ele pegava numa seta de madeira, uma arma especial, que eu nunca vira, e, com a mesma expressão de terror e compaixão, sentava-se à minha frente, talvez a um metro de distância, hirto e introspectivo.
 
Empunhando lentamente a sua arma, com os olhos fixos nos meus, conseguia disparar sobre mim, mas a mão tremia-lhe.
 
Eu podia sentir a ponta da seta cravada no peito, levemente, e depois um foco de calor, e depois uma vaga com o pulsar do coração, uma onda de embriaguez, semelhante àquela que se tem quando se bebe uma bebida muito forte muito depressa.
 
De repente, ficava muito quente e era levado numa onda, como se flutuasse.
 
Sentia o veneno a circular com a corrente de sangue, ardente e quente e corrosivo como um ácido, e pensava:
 
«É bom morrer assim.» 
 
Contudo, eu não morria.
 
Afinal, parecia que eu era um caso à parte.
 
Aquilo levava bocados de mim, como folhas arrastadas numa tempestade de vento, mas não conseguia matar-me.
 
Como se costuma dizer, eu era «um osso duro de roer».
 
O homem estava ainda mais aterrado, em completo silêncio.
 
O exército ia levar-me com eles, para me transformar num caso de estudo.
 
«Será que ainda posso continuar a escrever?...»
 
Era só no que pensava, alegre e entusiasmado, enquanto me carregavam, ainda sentado sobre a cadeira, com a seta atravessada no coração.